segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Ter voz

Eu tenho uma voz. Por motivos vários sempre senti que ninguém ligava à minha voz. Para me ouvirem ou tinha de pagar (fiz psicoterapia durante anos) ou pagavam-me - fui formadora e aí ouviam-se geralmente com interesse, porque, lá está: eu tenho uma voz.
Eu tenho uma filha, a Ana. E por isso vou aqui falar dela, nela, sobre ela. Porque ela é a minha razão de viver.
Eu tenho uma loja de gomas. Como passo aqui os meus dias, também falarei do que aqui se vai passando e me faz pensar, reflectir e depois falar.
Eu tenho um sentido de humor, meu, que só quem me conhece entende.
Eu tenho 50 anos. Começo a sentir a contagem decrescente. Já não não tenho outros 50 anos para viver. Por isso já estou a construir memórias. Não me sinto com 50 anos. Sinto-me uma miúda gira que sabe que tem 50 anos, mas que ninguém lhos dá.
Eu tenho muito para dizer, mas não tenho quem me queira ouvir.
Eu sei que a escrita é a minha forma de expressão. E por isso aqui estou.
Apesar de todas as frases começarem pela palavra eu, eu não sou narcisista.


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